
NESTA COMÉDIA MUSICAL, ENCENADA NO CABARET DA CECÍLIA, EX-PARCEIRAS DE PALCO, DUAS DRAG QUEENS NA TERCEIRA IDADE PRECISARÃO DEIXAR A RIVALIDADE DE LADO PARA ESTRELAREM UM SHOW JUNTAS NOVAMENTE
Como uma paródia de grandes musicais, “Desconserto para Duas” traz Dzi Mista (Ada Anjos) e Josephine Le Beau (Reron Miranda), duas drag queens já na terceira idade. Na juventude, as divas eram uma dupla de queens que se apresentava no antigo clube NINHO porém, após o fechamento da casa, as duas se separaram. Cada uma seguindo seu rumo, um ódio uma pela a outra começou a ser regado em seus corações, fazendo uma bela amizade se tornar em uma das maiores rivalidades da cena drag. Agora, anos após o fim derradeiro de suas carreiras, as duas recebem o convite para uma apresentação individual no “Aga e Aga”, um cruzeiro LGBTQIAP+ para um show em comemoração aos anos de carreira e legado. O que elas não sabem é que esse show será feito com as duas e elas terão de fazer um voto de paz para que esse barco não afunde.
“Desconserto para Duas” se baseia nos espetáculos “Conserto para Dois” de Ana Toledo e “O Mistério de Irmã Vap” de Charles Ludlam. Em ambas as peças, um elemento da encenação é marcante: o elenco composto por dois atores que interpretam todos os personagens. Em “Desconserto para Duas”, são dois atores que interpretam as personagens drag queens, os produtores e uma camareira. Assim, abusando dos artifícios farsescos, o espetáculo busca fazer a comédia a partir desse elemento, se apropriando de uma linguagem queer muito brasileira: o caricato.
A paródia é um recurso extremamente presente na obra, tanto no texto quanto nas músicas. O nome do espetáculo já é uma sátira ao nome da peça de Ana Toledo, citada acima. Aqui, a paródia flerta com o trabalho de Brecht e seu teatro épico utilizado-a tanto como elemento cômico e satírico, quanto forma de distanciar o público da obra e evidenciar a situação.
Para as visualidades, foi pensado nas personalidades divergentes das duas personagens principais. As cores e os estilos que representam cada uma das drags estão sempre em oposição. Enquanto Le Beau traz cores vibrantes e referência das antigas Rockettes com seus figurinos coloridos, detalhados e dinâmicos, Dzi esbanja de cores sóbrias, bebendo das visualidades das antigas damas do cinema, como Joan Crawford, focando no deslumbre e sobriedade. Num geral, os figurinos e adereços trazem uma referência forte do Teatro de Revista Brasileiro e dos Shows de Variedades, buscando trabalhar a opulência, a comicidade e o deslumbre. Como um bom show de drag queens, este é um elemento forte e predominante presente no espetáculo, buscando utilizar de artifícios como as revelações, volumetrias e acumulações para estimular o cômico.
A arte drag é algo milenar. Sendo nas tragédias da Grécia Antiga ou nos clássicos de Shakespeare, interpretar um personagem brincando com elementos de determinado gênero é algo tão antigo e forte quanto o próprio teatro. Ao pensarmos na contemporaneidade, o conceito de drag queen nas artes do palco é mais comum ainda, com grandes nomes como Vera Verão, Paulo Gustavo, Diego Martins e Alexia Twister presentes no nosso dia a dia.
Na comunidade LGBTQIAP+ é fortemente debatido a falta de afeto e tato para com as pessoas queers mais velhas. Desde a impossibilidade de amar ou desejar esses corpos quanto ao respeito pelo que foi vivido e, inclusive, conquistado com esses corpos. Na trama do espetáculo, tanto Dzi quanto Le Beau trazem essas questões da maturidade queer enquanto local de resistência, refletindo sobre as possibilidades amorosas desses corpos e os caminhos percorridos pelas pessoas mais velhas da comunidade que tanto lutaram para a manutenção dos nossos direitos.
Já a questão da desvalorização do trabalho da artista está presente na relação dos produtores com os artistas. Vemos, de forma muito presente no meio artístico, a dificuldade de entrar no mercado e estabelecer uma carreira. Há sempre um tom de competição, de necessidade de derrubar alguém para alavancar seu trabalho e, nesse espetáculo, essas situações se fazem muito
presentes e demonstram a importância desse debate. A relação do trabalho do artista e seu devido valor é posto em cheque como forma de fomentar os debates acerca desse tema. Não faz muito tempo que a comunidade artística de teatro musical no Brasil decidiu se juntar ao Sated para regularizar os direitos trabalhistas necessários para o trabalho com artes cênicas no país. Produtoras lucrando em cima do trabalho árduo de atores que, no fim, são totalmente desvalorizados, é um dos pilares temáticos de “Desconserto para Duas”, demonstrando a necessidade de produção dessa obra.
MÚSICAS (PARÓDIAS)
“Uma Outra Chance, Um Novo Show” (Another Op’nin’, Another Show) – Cole Porter
“Tudo Será Sobre as Rosas” (Everything Comes Up Rose) – Stephen Sondheim
“A Melhor” (Show Off) – Lisa Lambert & Greg Morrison
“Joias Brilham Muito Mais” (Diamonds Are The Girls Best Friends) – Leo Robin e Julio Styne
“Manas, Manas” (Sisters, Sisters) – Irving Berlin
“Não Vou Mais Tropeçar” (As We Stumble Along) – Lisa Lambert & Greg Morrison
“Perdendo a Razão” (Losing My Mind) – Stephen Sondheim
“Coisas Que Mamo” (My Favorite Things) – Richard Rodgers e Oscar Hammerstein II
“Tamo Aqui” (I’m Still Here) – Stephen Sondheim
“Drags ao Mar” (Anything Goes) – Cole Porter
COLETIVO PALADAR
O Coletivo Paladar é a união de sete artistas apaixonados por teatro musical que tiveram seus destinos entrelaçados pela São Paulo Escola de Dança, escola pública de ensino de dança com foco em jazz e teatro musical. Orientados por diversos artistas do teatro musical brasileiro como Alonso Barros, Anelita Gallo, Kátia Barros, Mariana Barros e Zuba Janaína, o grupo decidiu se unir com um intuito: criar teatro de forma independente! Assim, o grande lema do coletivo é realizar trabalhos teatrais autorais inspirados no universo musical e nas vivências queers e regionais brasileiras. “Desconserto para Duas” é o primeiro projeto do coletivo, que visa levantar o espetáculo em 2025 em São Paulo e circular pelo Brasil. Esse é só o pontapé inicial do grupo que busca começar a produzir teatro musical independente de muito bom gosto. Afinal, de paladar, o grupo entende!
FICHA TÉCNICA
ELENCO
Ada Anjos – Dzi Mista
Reron Miranda – Josephine Le Beau
CRIATIVOS e PRODUÇÃO
Direção / Texto / Versões – Ada Anjos
Direção Musical / Arranjos / Piano – Pedro Medeiros
Coreógrafo / Perucaria – Reron Miranda
Figurinista – Acrides
Cenógrafo – André Habacuque
Produção Geral – Duda Alencar e Luana Lucena
Realização – Coletivo Paladar
Apoio – Cabaret da Cecília
SERVIÇO
TEMPORADA: 02, 09, 16, 23 e 30 de Abril | 17, 24 e 31 de Maio e 7 de Junho de 2025
LOCAL: Cabaret da Cecília – R. Fortunato, 35, Santa Cecília
CAPACIDADE: até 50 assentos
*Sujeito à lotação – assentos por ordem de chegada
DIAS e HORÁRIOS: Abril – Quartas às 21h30 | Maio e Junho – Sábados às 21h30
DURAÇÃO: 100 min
CLASSIFICAÇÃO: 16 anos
INSTAGRAM: @coletivopaladar
INGRESSOS (on-line com taxa): sympla.com.br/desconserto-para-duas
Valor Único – R$ 20,00 + R$ 2,50 (taxa)
INGRESSOS (presencial sem taxa): Bilheteria no local. A casa abre às 21h.